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Mar Português - Fernando Pessoa |
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Ó mar salgado, quanto do teu sal São lágrimas de Portugal! Por te cruzarmos, quantas mães choraram, Quantos filhos em vão rezaram! Quantas noivas ficaram por casar Para que fosses nosso, ó mar! Valeu a pena? Tudo vale a pena Se a alma não é pequena. Quem quer passar além do Bojador Tem que passar além da dor. Deus ao mar o perigo e o abismo deu, Mas nele é que espelhou o céu. |
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Os diários de Colombo, o Cabeza de Vaca, o Hans Staeden, Caminha, Pigafetta, Bartolomé de Las Casas, todos descrevem, nos tempos que se seguiram ao início da ocupação européia da América, o ambiente e os povos que aqui encontraram. Aliás, é muito mais apropriado dizer encontramos, pois a menos que tenhamos muito sangue indígena, somos todos invasores, ainda que forçados, no caso dos negros. E o que eles encontraram foi uma natureza aparentemente pródiga e inúmeros povos em diversos estágios da Idade da Pedra, alguns tecnologicamente mais avançados, como aqueles que tinham agricultura, e organização social sofisticada, no México e no Peru, até outros nômades coletores em estágios muito recuados de desenvolvimento. O fato é que em pouquíssimo tempo os povos originais haviam sucumbido. Ou tinham sido dizimados ou restavam como pálido resquício do que tinham sido, aculturados e transformados em mão-de-obra das sociedades que substituíram as suas. |
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Meninos Carvoeiros - Manuel Bandeira |
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Os meninos carvoeiros Passam a caminho da cidade. — Eh, carvoero! E vão tocando os animais com um relho enorme. Os burros são magrinhos e velhos. Cada um leva seis sacos de carvão de lenha. A aniagem é toda remendada. Os carvões caem. (Pela boca da noite vem uma velhinha que os recolhe, dobrando-se com um gemido.) — Eh, carvoero! Só mesmo estas crianças raquíticas Vão bem com estes burrinhos descadeirados. A madrugada ingênua parece feita para eles . . . Pequenina, ingênua miséria! Adoráveis carvoeirinhos que trabalhais como se brincásseis! —Eh, carvoero! Quando voltam, vêm mordendo num pão encarvoado, Encarapitados nas alimárias, Apostando corrida, Dançando, bamboleando nas cangalhas como espantalhos desamparados. Petrópolis, 1921 |
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