|
Ulisses, após dezessete anos vencendo inacreditáveis desafios chegou à sua ilha de Ítaca e encontrou os pretendentes de sua mulher, Penélope, dilapidando seus bens e tentando passa-lo para trás. O herói, que não era dado a meias soluções, acaba promovendo um banho de sangue, matando todo mundo e recuperando sua mulher e seus pertences. Muitos já perceberam que na Odisséia, que está na origem da literatura ocidental, o herói é duvidoso. Não foge de algumas trapaças e muita violência para resolver seus problemas. No entanto, quero me fixar na questão de Ulisses em si. Não é herói de nenhuma causa coletiva, não luta pelos pobres, por um ideal nacional, pela paz mundial ou coisa que o valha. É defensor de si mesmo, seu orgulho ferido e suas propriedades.
Holywood cria vários Ulisses por ano. Muitos são policiais que sofreram um grande trauma, em muitos casos a esposa foi explodida, entregaram-se ao álcool e depois, para salvar a filhinha sequestrada, regeneraram-se em um paroxismo de violência. Os roteiros se sucedem, parecidíssimos, plagiando Homero. Mas afinal, já estava me esquecendo porque resolvi implicar com gregos e americanos. Ocorre que esse padrão de herói ocidental tem consequências. Nossa cultura está impregnada do conceito de salvação individual, seja no terreno social ou místico.
Existe uma sobre valorização do sujeito que chegou ao fundo do poço e acabou por salvar-se. Roubou, eventualmente matou, drogou-se, traficou, e depois encontrou a luz, pagou suas dívidas com a sociedade e hoje é um cidadão de bem, feliz e bom pai de família. Ótimo. Bom para ele e para a sociedade que não tem mais que dispender esforços para lidar com suas estripulias. Daí a apresentá-lo como modelo a ser observado é outra história.
Prefiro pensar que herói é o porqueiro Eumeu, que ajudou Ulisses apenas por senso de responsabilidade e lealdade, arriscando a vida simplesmente porque era um sujeito correto. Dignos de respeito são os muitos policiais que se arriscam todo o dia por um salário maior ou menor, mas que cumprem suas obrigações sem causar problemas a ninguém. A imensa maioria das pessoas enfrenta as dificuldades da vida sem cegar gigantes mitológicos, assaltar bancos ou vender cocaína. Não rendem grandes histórias para aedos do século VIII a.C. nem para diretores de cinema no século XXI, mas são eles que queremos ver nossos filhos imitando. Não ignoro que falar mal de três mil anos de cultura e ser politicamente incorreto com os recuperados é um pouco de insensatez da minha parte.
|