Caleb de Oliveira
Liberalismo estranho. PDF Imprimir E-mail

Frequentemente ouvem-se pessoas ligadas ao ambiente empresarial ou à academia, falando sobre a questão do estado. A visão que têm é geralmente a mesma. O estado é o grande problema da sociedade, é ineficaz e ineficiente, não cumpre o seu papel social e não permite o melhor funcionamento da economia, pois interfere nas regras do mercado de forma inepta, movido por interesses duvidosos. Os sucessivos governos não dariam continuidade aos projetos, não haveria foco nem planejamento nas ações. O remédio seria o estado ser mais parecido com o ambiente empresarial, o que se obteria com o empowerment das estruturas burocráticas, elevados níveis de meritocracia, enfim, menos política e mais administração.

 

O interessante é que as pessoas que fazem esse discurso consideram-se liberais. Estão convencidas que ao questionar o estado estão filiadas à melhor tradição liberal. Ora, o estado, tal qual formatado no ocidente, é a mais legitima conquista do liberalismo. Divisão de poderes, representantes eleitos com mandatos por tempo certo, tanto no Parlamento como na chefia dos governos, eleições livres abertas a todos os cidadãos, gabinetes (ministérios, secretariados) escolhidos pelos eleitos para implementar os programas de governo escolhidos pelos eleitores.

 

É claro que ninguém é tão ingênuo a ponto de questionar esses paradigmas diretamente. Todos são democratas, defensores da liberdade e inimigos do autoritarismo. Ninguém pretende por em xeque a forma, querem apenas eliminar o conteúdo. Continuem-se elegendo representantes, apenas os subordinemos a objetivos pré-estabelecidos, programas tecnicamente construídos e implementados pela burocracia permanente do estado. Para essas elaborações e implementações, basta utilizar o ferramental teórico de administração, fartamente conhecido e testado no setor privado e também no público. Em suma, democracia na forma, autoritarismo na vida real.

 

Autoritarismo, porque há um pressuposto subjacente a esse discurso. Alguém sabe o que é bom para a sociedade, está acima dela. Não importa se essa entidade é uma pessoa, um conjunto de associações, um estamento burocrático ou um partido. O principio de que a cidadania pode escolher um projeto para a sociedade, mante-lo ou mudar de idéia no período seguinte, fica irremediavelmente perdido e com ele a democracia, forma vazia de conteúdo.

 

É claro que o modelo liberal tem falhas, vícios, deformidades, nas inúmeras variações nas quais as nações o moldaram. Sistemas partidários restritos, crises na representação parlamentar, submissão a organismos externos, geralmente ligados às finanças, são algumas das suas deficiências. Há dois caminhos para enfrentar esses problemas, um o analisado criticamente aqui. O outro é ampliar os mecanismos de participação da sociedade (e não entregar o poder para um setor dela) fomentar os muitos meios de exercitar a democracia participativa, no rumo da ampliação da democracia a partir do modelo liberal (e não do seu esvaziamento).

 

Na verdade excessivo poder à burocracia, termo aqui utilizado para nominar as estruturas permanentes do estado, sem qualquer sentido pejorativo (o autor é servidor público concursado há trinta e um anos), é exatamente a antítese da democracia liberal. Remete aos modelos burocráticos do século XX. É evidente que a utilização de técnicas de administração oriundas do interior das empresas ou da academia, são salutares em qualquer ambiente. A ausência de objetivos e indicadores de resultados compromete qualquer gestão. Nada disso, no entanto, substitui a política, especialmente em sua dimensão democrática oriunda do pensamento liberal.

 
O Século do Individualismo PDF Imprimir E-mail

 

Há um documentário da BBC em quatro partes, intitulado “The Century of the Self”. São quase quatro horas de investigação sobre um dos aspectos mais instigantes do século XX. Exaustivamente o premiado autor, Adam Curtis, conta a história de como as teorias de Sigmund Freud, utilizadas por seu sobrinho Edward Bernays, serviram para transformar norte-americanos e britânicos e, de resto, todos nós, em consumidores. Na realidade Bernays que começou como consultor do presidente norte-americano no final da Primeira Guerra, se perguntou se os mesmos métodos de propaganda utilizados para manipular as massas na guerra não poderiam ser úteis para fazer dinheiro na paz.

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Ulisses e a salvação. PDF Imprimir E-mail

Ulisses, após dezessete anos vencendo inacreditáveis desafios chegou à sua ilha de Ítaca e encontrou os pretendentes de sua mulher, Penélope, dilapidando seus bens e tentando passa-lo para trás. O herói, que não era dado a meias soluções, acaba promovendo um banho de sangue, matando todo mundo e recuperando sua mulher e seus pertences. Muitos já perceberam que na Odisséia, que está na origem da literatura ocidental, o herói é duvidoso. Não foge de algumas trapaças e muita violência para resolver seus problemas. No entanto, quero me fixar na questão de Ulisses em si. Não é herói de nenhuma causa coletiva, não luta pelos pobres, por um ideal nacional, pela paz mundial ou coisa que o valha. É defensor de si mesmo, seu orgulho ferido e suas propriedades.

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Questão de opinião. PDF Imprimir E-mail

 

Dois ministros da república foram fortemente atacados por congressistas devido a terem expressado convicções pessoais sobre questões que ofendem o senso moral desses parlamentares. Certo. Alguém poderia facilmente dizer que opiniões públicas de ministros nunca são simplesmente pessoais, já que eles têm poder para materializar essas opiniões. O problema é que ministros não perdem a cidadania e, portanto, têm tanto direito a expressar suas opiniões quanto qualquer outro, pelo menos se o paradigma for a constituição da república, o que não é surpreendente em um estado de direito.

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Conservadores não acreditam em fatos. PDF Imprimir E-mail

 

Porque os Estados Unidos parecem atolados em uma crise sem precedentes? O New Deal foi o melhor “regime” que o país conheceu em sua história. Tirou o país da Grande Depressão, criando a maior classe média da história, delegou cidadania às minorias e às mulheres e criou um amplo sistema de proteção social. Ocorre que os conservadores consideram tudo isso um pesadelo, pois quebra o que consideram a ordem natural de poder e privilégios.

As políticas começaram a mudar durante o período Reagan. Orçamentos constantemente no vermelho, estagnação para todos exceto para os 1% mais ricos, a vitória em uma Guerra Fria que já havia sido virtualmente encerrada em 1976 e que tem a responsabilidade pelo surgimento da al-Qaeda, uma ampla desregulamentação da economia que acabou gerando um resultado espetacularmente desastroso, mais de um milhão de presos como política de combate às drogas. Ou seja, em todos os temas mais caros aos conservadores, os resultados foram péssimos, as políticas falharam.

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